Falando sobre o ABC
Várias perguntas são feitas a respeito do ABC, sobre o que é, como é, etc. Mas a que mais chama a atenção de nós, administradores do ABC, é: “Como garantir a qualidade dos blogs científicos do portal ABC, ou quais os critérios usados para selecionar o material?”.
Ora, por definição, a blogosfera científica é uma comunidade, e o objetivo do portal não é “patrulhar” a mesma, mas sim dar um acesso aos leitores, de forma concentrada em listas de links, para blogs científicos, quer sejam populares quer sejam pouco conhecidos.
Mas é claro que a questão da qualidade permanece. Assim, por enquanto, enquanto não existem critérios mais explícitos de inclusão, os blogs estão sendo convidados individualmente.
Por outro lado, como poderíamos definir se um blog é científico, se não é possível definir Ciência?
É de comum acordo que blogs específicos sobre pseudociências (entendidas como práticas ou teorias que se dizem fundamentadas cientificamente mas que não são avalizadas pela comunidade científica) e paraciências (entendidas como práticas ou teorias que não afirmam serem fundamentadas cientificamente) não são o objeto primordial do portal (lembrar a letra C do ABC). Assim, existe uma triagem, mas é uma triagem grossa.
Por exemplo, eu imagino que muitos psicanalistas se sentem desconfortáveis caso fossem chamados de cientístas (embora Freud não), pois afinal “todo mundo sabe” que a Psicanálise é maior e mais ampla que uma disciplina científica. Sendo assim, caso um blogueiro psicanalista como o Rogério Silva, do Freud Explica, participante da Roda da Ciência, quiser se inscrever no Portal, ele seria filtrado fora?
Por outro lado, eu tenho visto textos e comentários tão fracos (do ponto de vista científico - ou seja, cheios de falácias e pensamento sofismático) em blogs “céticos” ou de “ateísmo militante”, que pretendem “defender a ciência”, que uma filtragem estrita em termos de qualidade também deveria excluí-los…
Ou seja, em que sentido a Blogosfera pode divulgar ciência ou cultura científica? Será que não seria melhor dizer que o que a Blogosfera Científica faz é uma “conversação sobre ciência”, como o Science Blogs da SEED afirma? Ou seja, assim como a USP não avaliza nossas conversas (na cantina) sobre ciência e filosofia, também o portal ABC não o faria. Mas patrocinar essas conversas ajudaria principalmente a enfraquecer estereótipos sobre a ciência. Isso já seria um grande feito.
Quem vai dar o selo de qualidade final de cada blog é o “mercado”, ou seja, os leitores e blogueiros, com as avaliações em forma de comentários, número de visitas, autoridade Technorati de cada blog etc. OK, OK, não apenas o “mercado” leitor, pois sempre estaremos “puxando a sardinha” para propósitos educativos…
O objetivo de um portal de blogs científicos poderia ser patrocinar um elenco selecionado de blogs científicos strictu sensu. Ou talvez apenas blogs pedagógicos. Talvez outros portais o façam, mas no presente estágio, o objetivo do ABC é outro: um mapeamento extensivo da blogosfera científica latu senso, uma facilitação de acesso visando catalizar sua expansão, pois acreditamos que a qualidade vai emergir da quantidade: a blogosfera científica brasileira talvez ainda não tenha massa crítica para esse salto qualitativo.
Perturbando a blogosfera
Quando você faz um hiperlink para outros blogs ou fontes em seu post, você está participando do processo “natural” de crescimento da blogosfera. Esse processo de auto-organização leva a uma estrutura de rede complexa em forma de lei de potência (a tal long tail) com um dado expoente que descreve seu formato - a “concentração de renda” de links - expoente que pretendo descobrir se depende do tempo.
Outras práticas correntes na blogosfera como fazer listas top 10 ou top 100 influenciam a curva Autoridade versus Rank (Zipf plot) dos blogs, por exemplo, multiplicando por um fator 10 a autoridade dos blogs que apareceram na lista. Ou seja, se o processo normal de auto-organização é baseado na lei de Mateus (“O rico em links fica mais rico”), a lista produz um efeito Super Mateus “O Top 100 Technorati fica mais rico ainda!”.
Existem outras práticas que perturbam a distribuição de links “natural” da blogosfera? Bom, como a blogosfera é uma rede tecnológica, é dificil dizer o que é natural e o que não é, mas uso essa palavra com cuidado no sentindo de distinguir ações intencionais das não intencionais (por exemplo, um ataque intencional na rede definida pela internet visando sua desconexão com o menor número de links ou nodos detonados).
Três tipos de sites podem potencialmente “perturbar a blogosfera” científica (talvez vocês conheçam outros):
- Metablogs que contenham uma lista extensa de links de blogs científicos, tais como o Blogs de Ciência e o Anel de Blogs Científicos: eles fazem shortcuts entre blogs, são superhubs, podem talvez fazer com que as pessoas deixem de cuidar adequadamente de seus blogrolls. Isso seria péssimo, pois é importante para a blogosfera a formação dessas comunidades de blogs fortemente linkados. O objetivo do Blogs de Ciência e do ABC é melhorar o acesso do leitor aos blogs de ciência, especialmente aos pequenos e desconhecidos mas que podem ter potencial de crescimento. Por outro lado, listas extensas de blogs científicos poderiam ser úteis pois o blogueiro poderia deixar no seu blogroll apenas os blogs que ele realmente valoriza, ou seja, blogrolls mais enxutos.
- Condomínios de blogs como o Science Blogs e o Lablogatórios (que em breve carregará a marca Science Blogs Brazil). O Roda da Ciência é um condomínio informal, acho, funcionando como um pequeno hub para posts com temas mensais. Acho que aqui o objetivo é agregar blogs de qualidade na sua peridiocidade, autoridade científica e qualidade de escrita. Nesse sentido, acho que os condomínios se tornam as listas efetivas dos Top Ten ou Top 20 blogs e podem gerar o tal efeito Super Mateus. Evidência a favor disso é o fato de que grande parte dos concorrentes ao Best Blogs Brazil na categoria Ciência pertenciam ao Lablogatórios.
- Existem metablogs menores, por exemplo especializados apenas em ambientalismo ou geociências. Ainda não sei se eles teriam algum efeito estatístico na blogosfera científica.
É claro que “Perturbar a Blogosfera”, ou seja, sua distribuição de autoridade em forma de lei de potência (na verdade, de Zipf-Mandelbrot) não é algo ruim em si, apenas deixa o fenômeno da blogosfera mais complicado. Essas diversas estruturas e fatores hierárquicos deverão então ser levados em conta em um estudo mais aprofundado da blogosfera (científica ou não) no Brasil e no exterior. E como uma recente discussão no Polegar Opositor revelou, existem muitas discussões mais interessantes sobre o blogar científicos do que ficar fazendo estatística de links (basicamente nosso trabalho lá no ABC). Por exemplo, como se profissionalizar, como transformar seu blog em um livro e coisas desse tipo.
Lá no ABC nossa intenção é outra. Gostariamos de responder à algumas perguntas:
- Qual o tamanho relativo da blogosfera científica brasileira em relação à de Portugal?
- Qual a propoção relativa de blogs nas áreas cobertas: Física, Astronomia, Biologia, Química, Matemática etc…
- Que áreas ainda não foram cobertas?
- Para cada blog científico quantos blogs “pseudocientíficos” existem?
- A blogosfera científica está em crescimento? A que taxa? Já demonstra sinais de saturação?
- Qual a vida média de um blog científico?
- Quantos blogs são feitos por cientistas profissionais? Por pós-docs? Por estudantes? etc
- Etc…
É por isso que precisamos enfatizar os dados quantitativos: números de links, autoridade, fator h etc. As perguntas são outras, perguntas que só podem ser respondidas de forma estatística.
(Source: comciencias.blogspot.com)
Esse é o nosso blog de divulgação científica, que reúne vários outros blogs de estudos científicos.
